Violência psicológica contra a mulher: um mal invisível

Violência psicológica contra a mulher: um mal invisível

Por Anderson Albuquerque


Centenas de mulheres estão sendo mortas ou agredidas a cada minuto no nosso país. A violência física contra a mulher, que vai desde a agressão até o feminicídio, aumenta a cada dia em proporções alarmantes. Existe, porém, um tipo de violência que é sutil, mais subjetiva, mas não menos cruel: a violência psicológica.


Ao contrário do que muitos pensam, a Lei Maria da Penha surgiu para salvaguardar a mulher não só da violência física, mas de todos os tipos de violência, que incluem a psicológica, a sexual, a patrimonial e a moral.  Em seu artigo 7º, Inciso II, assim a descreve:


"II - a violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da autoestima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação;"


Por ser uma forma mais subjetiva de violência, a violência psicológica nem sempre é identificada, e muitas vezes é até mesmo negligenciada por quem a sofre, pois pode estar mascarada em ironias, demonstração de ciúmes, ofensas, humilhações e outras formas de controle.


Este tipo de violência se manifesta, portanto, nos pequenos gestos, nas repetidas ofensas à mulher, na crítica ao seu comportamento, sua imagem, suas roupas e seus valores, causando prejuízo à sua saúde psicológica, à sua autoestima e tornando-as, muitas vezes, codependentes de relações abusivas.


A mulher vítima de violência psicológica dificilmente busca ajuda, e às vezes justifica as atitudes do agressor, o que é bastante grave, pois esse quadro quase sempre precede uma evolução da violência, que passa a ser física.


As mulheres precisam ter em mente que quando o homem a xinga, critica suas ações, seu corpo, desqualifica seus amigos e sua família, quer controlar como ela se veste, a hora que sai, dentre outras atitudes manipuladoras, ele não está demonstrando afeto, cuidado - ele está exercendo domínio psicológico sobre elas.


Em muitas destas situações descritas, a mulher, assim como nos casos de agressão física, tem medo de denunciar, pois muitas vezes mora longe da família, de seus amigos, depende financeiramente do companheiro ou marido, ou tem medo de não levarem a sério suas queixas, uma vez que a violência psicológica não deixa marcas visíveis.


Médicos, assistentes sociais, psicólogos e policiais afirmam que os efeitos que este tipo de violência causa na mulher vão desde distúrbios alimentares até a depressão, podendo levá-las até mesmo a tentar suicídio.


Fica bastante claro, pois, que a violência psicológica é um crime tão grave quanto a física, uma vez que pode manter a vítima durante anos presa num relacionamento tóxico, em que ela é humilhada e agredida verbalmente constantemente, mas não tem forças para sair.


As consequências, mesmo para aquelas mulheres que resolvem terminar a relação, podem ser irreversíveis: elas continuam a apresentar um quadro de baixa autoestima, ansiedade, depressão, síndrome do pânico, entre outros.


Nossa cultura ainda é, infelizmente, paternalista - o homem é visto como superior à mulher. A sociedade brasileira ainda é bastante machista e as mulheres sofrem discriminação diariamente, seja nas relações de trabalho ou nas relações afetivas.


A criação de leis como a Lei Maria da Penha, e as transformações das relações econômicas, políticas, sociais, culturais e de poder são fundamentais para as mulheres garantirem seus direitos e a igualdade de gêneros, a fim de reduzir os índices de violência contra a mulher.


A mulher que sofre violência psicológica tende a culpar a si mesma e não o agressor, então ela acredita que ele pode mudar e que seus atos talvez sejam responsáveis pelas atitudes do homem.


A violência psicológica fragiliza a mulher, mas para que ela possa combatê-la, ela precisa se fortalecer, impor seus valores e suas vontades perante seu parceiro. É preciso que essas mulheres se empoderem, para perceberem a situação em que se encontram e assim usar toda sua força para enfrentá-la.


É fundamental que a violência psicológica, apesar de ser a mais comum, não seja naturalizada. As marcas deixadas podem não ser visíveis fisicamente, mas ficarão para sempre gravadas na alma da mulher.


Nenhuma mulher deve se sentir humilhada e controlada, e sim valorizada, protegida, amada. A sociedade deve ser um lugar seguro e de estímulo ao seu crescimento pessoal e profissional, num cenário em que ainda são minoria em relação aos homens.


O empoderamento feminino está ligado, assim, à luta contra a violência psicológica sofrida pela mulher. Consciente de seus direitos, a mulher reconhecerá que sofre este tipo de abuso e se libertará do papel de vítima que lhe é imposto, superará a instabilidade emocional a que foi submetida para garantir seus direitos como pessoa, cidadã e, principalmente, como mulher.