Mulheres sofrem com discriminação e exaustão durante a pandemia

Mulheres sofrem com discriminação e exaustão durante a pandemia

Por Anderson Albuquerque


As mulheres que têm filhos enfrentam muita discriminação no mercado de trabalho. Com a pandemia da Covid-19, a situação ficou ainda pior. Uma pesquisa feita pela consultoria McKinsey & Company mostra que as mulheres, além de estarem fazendo mais tarefas domésticas do que os homens nos últimos meses, estão preocupadas se estão sendo julgadas negativamente por fazerem home office. Por esse motivo, uma em cada quatro mulheres, principalmente as mães, pensou em mudar de carreira ou deixar o mercado de trabalho. 


O trabalho remoto aumentou também o volume de trabalho, e as mulheres estão com dificuldade de conciliar a vida doméstica e a profissional. Além disso, a pandemia gerou uma menor motivação pessoal e baixa sensação de bem-estar.


Uma pesquisa feita pela empresa de consultoria Kearney com mil mulheres nos EUA mostrou que estes fatores levaram a 30% das entrevistadas em pensar em deixar o emprego. São mulheres entre 25 e 45 anos, com a carreira já consolidada e com um enorme potencial de crescer ainda mais profissionalmente.


No início do isolamento social, cerca de 30% dessas mulheres passaram a trabalhar em home office, 20% já trabalhavam principalmente em casa e 50% continuaram trabalhando presencialmente.


O cenário de exaustão não é diferente no Brasil. Aqui, 40% dos lares brasileiros têm as mulheres como chefes de família, ou seja, são as mulheres as responsáveis por prover o sustento dos filhos e, muitas vezes, também de seus pais.


Além disso, são elas também as responsáveis pelo cuidado com a casa e com os filhos: lavar, passar, cozinhar, fazer faxina, levar o filho ao médico quando fica doente, e o orientar na educação no "novo normal": aulas online.


Embora alguns homens também realizem afazeres domésticos, essa não é a realidade da maioria das mulheres, que têm que cumprir uma dupla jornada, mesmo que ganhem mais ou trabalhem fora o mesmo número de horas ou até mais que seus parceiros.


Mesmo as mulheres que tinham uma ajuda, como as que deixavam os filhos nas avós durante o trabalho, não puderam mais fazer isso, devido ao alto índice de contaminação em idosos.


No caso das profissionais de saúde, além da rotina exaustiva do combate ao Covid-19, há o medo diário de se contaminar e passar para quem convivem diariamente - seu parceiro e seus filhos.


A situação das mulheres empregadas está ruim, mas algumas estão passando por um problema ainda maior: o desemprego. De acordo com um novo relatório da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), órgão ligado à ONU, a pandemia do Coronavírus impactou muito as ocupações e condições de trabalho nessas áreas.


Houve uma queda de 6% de mulheres empregadas, na comparação entre 2019 e 2020, o que afetou o PIB regional, que caiu para 7,7%. A Comissão estima que cerca de 118 milhões de mulheres latino-americanas estejam em situação de pobreza – 23 milhões a mais do que em 2019.


Ainda segundo o relatório, os reflexos sentidos pelas mulheres já representam um retrocesso de mais de uma década nos avanços em igualdade de gênero no mercado de trabalho.


A mudança desse cenário tem que começar em casa – os homens precisam dividir os afazeres domésticos com as mulheres que trabalham. Além disso, as empresas têm que entender a nova realidade causada pela pandemia do coronavírus, que levou as mulheres à exaustão física e mental, e rever os fluxos e o volume de trabalho.


Ademais, as políticas sociais de recuperação precisam estar focadas na redução da desigualdade de gênero causada pela pandemia – são necessárias ações na seara trabalhista e políticas fiscais que não só garantam os direitos das mulheres já alcançados, mas que solucionem os problemas trazidos pela pandemia.


Anderson Albuquerque – Direito da Mulher – Mulheres na pandemia